Pioneiro no país, jornalista e pesquisador defende os brasileiros
Angelo Ishi formou-se em Jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e fez pós-graduação em Ciências Sociais nas Universidades de Niigata e de Tóquio.
Foi membro do primeiro Conselho de Cidadãos do Consulado Brasileiro em Tóquio. Um dos organizadores do projeto “No Border”, que promoveu o intercâmbio entre os brasileiros e outras comunidades estrangeiras entre 2007 e 2009.
O professor foi um dos autores do famoso relatório “Diretrizes sobre Políticas de Coexistência Multicultural”, do Ministério da Administração japonês, que deu início ao boom de políticas amigáveis em relação aos estrangeiros nas províncias e cidades do Japão.
É autor do livro “Burajiru o shiru tame no 55 shoo”, uma das maiores referências sobre o Brasil em língua japonesa.O livro foi relançado este ano como “Burajiru o shiru tame no 56 shoo”.
Foi escolhido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Tóquio para ser coordenador do primeiro projeto de “Conscientização da população japonesa para receber melhor os estrangeiros”. E pela IOM (Organização Internacional das Migrações) para representar o Japão no Diálogo Internacional sobre Migrações em Genebra.
Angelo tem acompanhado a história dos brasileiros no Japão desde a sua chegada ao Japão, em abril de 1990. “Eu me orgulho de ter acompanhado o nascimento da comunidade desde o início”, diz Ishi. “Acompanhei os primeiros restaurantes e karaokes de Oizumi,os pioneiros de Hamamatsu, as primeiras festas em Toyota.”
Na década de 90, foi editor-chefe do Jornal Tudo Bem e diretor de redação da revista Made in Japan. Hoje,é professor da Faculdade de Sociologia da Musashi University. Também é colunista da revista Alternativa e do site da NHK de Nagoia. É conselheiro da NNBJ desde a sua fundação.
Mensagem
“Como eu acompanho passo-a-passo a comunidade desde o seu nascimento, acabei cultivando um carinho especial por ela. Faço parte da geração dos dinossauros, dos pioneiros que conhecem a história da comunidade. Também conheço as movimentações por parte dos governos japonês e brasileiro. Por fim, tenho contato com outras comunidades estrangeiras aqui no Japão, e também com os brasileiros espalhados por várias partes do mundo. Acho que unindo os conhecimentos do passadocom as informações do presente, eu poderei dar alguma contribuição para os debates no Rio visando um futuro melhor para todos nós que vivemos no Japão. Afinal, já faz tempo que decretei o meu “Dia do Fico”, e desde então eu me apresento como um Zainichi Burajirujin Issei: Brasileiro de Primeira Geração Radicado no Japão”.
Acompanhe a entrevista:
Portal WebNews: Por que você decidiu se candidatar a representar os brasileiros no Conselho?
Angelo Ishi: Os motivos são muitos! Primeiro, porque fui incentivado por muitas pessoas que eu respeito e admiro, como por exemplo a professora Lilian Hatano, que assina um excelente blog neste site. Segundo, porque conheci pessoas com grande bagagem acadêmica que participaram ativamente como representantes do Conselho provisório (só para citar um exemplo, a socióloga Helô Galvão, de Boston). Acho que um Conselho pode ter uma formação diversificada, com membros de várias áreas. E um acadêmico terá, com certeza, muitas oportunidades de contribuir para enriquecer os debates.
Pouca gente sabe, mas fui um dos primeiros voluntários da primeira associação de assistência aos latino-americanos no Japão, o CATLA, por volta de 1991. Depois disso, fui tradutor voluntário durante uma década no Fundo de Auxílio aos Trabalhadores Latino-Americanos no Japão.
Outro motivo que todos sabem é que eu venho defendendo com unhas e dentes a imagem da nossa comunidade, tanto perante a sociedade japonesa como a brasileira (e a nipo-brasileira). E um ponto que não podemos esquecer na hora de escolher os representantes no CRBE é que são eles que vão formar a imagem da nossa comunidade perante os outros “brasileiros no mundo” e perante o governo também. Você não pode escolher qualquer candidato na empolgação e no “vamos experimentar pra ver no que dá”, porque o representante vai ter que fazer no minimo o que eu posso apelidar de “3D”: discursar, discutir e debater muito com os representantes da Europa e das Americas. Nem preciso dizer que o e o “discutir” não quer dizer “falar mal dos outros”, mas sim buscar a compreensão mútua.
Outra coisa que posso enfatizar é que, graças às pesquisas que venho realizando nas várias comunidades brasileiras nos Estados Unidos, Inglaterra e outros países, vou poder introduzir uma ótica mais comparativa na hora de levar propostas para o Conselho. Por que a ótica comparativa é importante? Porque, às vezes, um problema que nós consideramos urgente pode não ser considerado urgente por outras comunidades. O representante do Japão precisa saber entender como os representantes dos outros países vão enxergar o tamanho dos nossos problemas. Vai ter que encontrar os argumentos certos, e o tom certo para fazer as reivindicações. Está aí outro cenário em que poderei contribuir com a minha experiência.
Portal Web News: Em que áreas você considera que a atuação dos órgãos diplomáticos deixa a desejar?
Angelo: Para responder esta pergunta, temos que saber diferenciar os “órgãos” das pessoas que nela trabalham. Sem demagogia, eu digo que até hoje já conheci muitos diplomatas que estão verdadeiramente preocupados com a comunidade. Isso não quer dizer que os órgãos diplomáticos tenham funcionado como todos nós gostaríamos. Por exemplo, eu quase já perdi uma importante viagem para o Brasil porque o meu passaporte estava parado há meses sem vir o novo. Mas a culpa nem era do Consulado, muito menos dos seus funcionários. Simplesmente a Polícia Federal não tinha estoque de passaportes para enviar. Só que, para nós que vivemos no exterior, não interessa de quem é a culpa, o que interessa é que, sem passaporte, nós ficamos presos onde estamos. Sem dúvida, a maior lacuna na atuação dos órgãos diplomáticos é justamente aquela que tende a ser preenchida com o bom funcionamento do CRBE: a falta de um diálogo mais direto e constante com a comunidade expatriada. Ao longo das últimas duas décadas, o governo veio criando diversos canais de comunicação com os brasileiros no exterior. O CRBE promete ser, de longe, o mais efetivo de todos. Só que, para isso, a comunidade tem que se mobilizar para o maior número possível de pessoas votarem.
Portal Webnews: Quais questões da Comunidade do Japão precisam ser priorizadas?
Angelo: Na educação, temos que transformar tanto a escola pública japonesa como a escola particular brasileira em pontes reais para a universidade. Num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, é inconcebível que nossas crianças parem os seus estudos no Fundamental. Temos que abrir pelo menos dois caminhos para elas: prosseguir nos estudos no Brasil ou no Japão. E isso tem um nome: educação bilingue de verdade, em japones-portugues. Eu nunca encontrei até hoje nenhum pai ou mãe que dissesse que não quer que o filho aprenda o nihongo. O que eles não querem é que o filho vire “japonês”, no sentido de perder as raízes brasileiras e não saber nada de português. Então, a nossa batalha tem que ser nas duas frentes: melhoria do ensino particular (escolas brasileiras) e condições melhores para as crianças brasileiras no ensino público (escolas japonesas).
Na questão trabalhista, não existe varinha mágica, mas precisamos pedir para que o governo mantenha e melhore as medidas de ajuda aos “nikkeis” (Obs.: Só estou usando esta palavra porque é o governo japonês que usa este termo; no meu caso, eu me refiro a todos os membros da comunidade brasileira no Japão, incluindo os “não-nikkeis”).
Todo mundo fala que educação e trabalho são os dois grandes problemas da comunidade, mas eu devo alertar que nós precisamos nos preocupar mais com a questão da política de vistos para “nikkeis”. Temos que zelar para que o governo leve em conta a contribuição de duas décadas que os brasileiros já deram para a economia e a sociedade japonesa. Todo mundo só fala nas tais “remessas dos dekasseguis” para o Brasil. Mas ninguém precisa ser bom de matemática para provar que a nossa contribuição total para o Japão é muito maior do que isso. Por mais problemas que alguns irresponsáveis tenham causado para o Japão, os brasileiros honestos não merecem punidos por causa disso.
Portal WebNews: Você já tem propostas para levar ao Conselho? Quais?
Angelo Precisamos nos lembrar de que, no CRBE, não basta “elaborar” propostas. O grande desafio do conselheiro vai começar na fase seguinte, ou seja, na hora de expor as tais propostas perante um plenário exigente. O conselheiro terá que enfrentar muitas resistências, e usar todo o bom senso para superá-las. Outra função importante que as pessoas não estão enxergando é que não basta transmitir o que a comunidade QUER, o conselheiro precisa ser capaz de transmitir também o que ela NÃO QUER.
Já enfatizei isso em outras oportunidades, mas vale a pena frisar que não podemos querer reinventar a roda, recomeçar sempre do zero. Renegar o que foi feito pelos antecessores, só para parecer que está trazendo coisas novas, é um erro. Vou te dar alguns exemplos de reivindicações que já saíram nas Conferências, e que poderíamos colocar em pauta para discutir a sua viabilidade: expandir a negociação de acordos bilaterais de isenção de vistos, expandir cooperação acadêmica para tradução de textos na áreas de saúde, posicionar-se contra as ações de Governos que visem restringir os fluxos migratórios.
Na questão do trabalho, faz tempo que eu venho insistindo no apoio governamental aos pequenos empresários e empreendedores brasileiros no exterior, e não só para aqueles que já retornaram ao Brasil.
Na área cultural, quero priorizar a criação de um “Festival Internacional de Vídeos dos Brasileiros no Mundo” e um “Concurso Literário Internacional”. A Organização Internacional para as Migrações (IOM) já tem experiências fantásticas e bem sucedidas nesse sentido, e eu acho que podemos aplicar algumas delas para os brasileiros no mundo.
Também vou reivindicar uma maior divulgação e agilização na emissão de passaportes biométricos, pois quem ainda está com o passaporte antigo tem passado por apuros desnecessários nos aeroportos internacionais.
Portal Web News: Estando no Japão, a senhor acha possível analisar e encaminhar propostas relacionadas aos brasileiros que estão, por exemplo, em Angola ou na Indonésia?
Angelo:Possível, com certeza é, graças aos avanços tecnológicos que nos permitem a comunicação à distância até certo ponto. Mas, francamente, eu acho que os candidatos deveriam ser realistas e admitir que a distância geográfica é uma barreira grande, sim. Por mais que se use os recursos da telefonia e da internet, há um limite para um conselheiro residente no Japão conhecer as realidades e ouvir as demandas de Angola ou Indonésia, assim como um conselheiro residente no Oriente Médio ou em outros países da Ásia dificilmente conseguirá ter a real noção do que mais aflige a comunidade brasileira do Japão.
Insisto que a função dos conselheiros não é apenas de encaminhar propostas que beneficiem um grupo específico residente em uma região. Precisamos inverter o raciocínio: não é o conselheiro do bloco Ásia-África-Oceania-Oriente Médio que deve, sozinho, tentar atender a necessidade dos brasileiros na Angola ou na Indonésia, mas sim todos os conselheiros, de todos os blocos, é que devem elaborar propostas que beneficiem, direta ou indiretamente, os brasileiros do mundo todo, estejam onde estiverem.
Aliás, é inevitável que uma das minhas propostas no Conselho seja a de se reavaliar esta divisão de blocos em que colocaram juntas Ásia, África, Oriente Médio e Oceania, continentes tão distantes e com realidades tão diversas.
Portal WebNews: No bloco que você quer representar (Ásia, África, Oriente Médio e Oceania), o país com maior concentração brasileira é o Japão, com cerca de 280 mil. Porém existem outras comunidades brasileiras por exemplo os 37 mil da África, 31 mil no Oriente Médio e 22.500 na Austrália e Nova Zelândia. Quais questões destas comunidades você considera mais urgentes? Ângelo: Em março deste ano, fui convidado pela Organização Internacional das Migrações (IOM) para palestrar sobre os brasileiros no Japão em um simpósio sobre Migrações em Genebra, na Suíça. O que pude constatar lá é que, excetuando-se o Japão, o drama dos “ilegais” (aliás, melhor usar a palavra “indocumentados” ou “em situação irregular”) é uma das questões mais urgentes em todos os países e continentes. Por outro lado, cada região tem suas especificidades. Na África e no Oriente Médio, há brasileiros muito bem empregados, por multinacionais brasileiras presentes na região. Na Austrália, há muitos estudantes de inglês. No simpósio da IOM, estavam presentes muitos diplomatas dos países africanos, e pude perceber que estes países estão muito mais preocupados com os africanos residentes em outros países do que com os estrangeiros que imigraram para a África. Percebo que os governos da África ainda sequer tomaram conhecimento de que há um número significativo de brasileiros morando no continente, com necessidades especiais. O mesmo se pode dizer do Oriente Médio. Por isso, eu diria que, nestas duas regiões, a questão mais urgente é, antes de mais nada, ajudar a população brasileira a se tornar mais visível perante os governos. Já o caso da Austrália me parece um pouco diferente. Ao contrário da África e do Oriente Médio, a Austrália já tem um histórico e uma tradição de país receptor de imigrantes. Tenho uma amiga antropóloga, a Cristina Rocha, que vem pesquisando os brasileiros na Austrália. Segundo um texto dela, não se pode falar em uma comunidade brasileira homogênea. Há dois grupos com backgrounds bem distintos: uma primeira leva que chegou à Austrália nos idos da década de 70, atraídos por incentivos do governo de lá, e uma segunda leva bem mais recente, de jovens da classe média para cima, que começaram a chegar só na década de 90. É claro que eles devem ter necessidades comuns, mas também é óbvio que cada grupo deve ter suas necessidades específicas.
Para concluir, eu diria que, se eleito, poderei aproveitar toda a minha bagagem na hora de debater as propostas e defender a nossa comunidade lá. Vou pensar não só nos “problemas”, mas nas possibilidades de intercâmbio entre nós e as outras comunidades.




















Caso interesse ao sr. Ishi, ele poderia acessar o site abaixo:
http://www.ndl.go.jp/brasil/pt/s1/s1_1.html#se1gannen
Peço desculpas ao Portal Webnews ao postar um link, mas é um site governamental, apenas com fins educativos.
Eu acho que, malgrado a evolução tecnológica, os problemas parecem os mesmos. A solução encontrada pelos nossos antepassados é que parece um pouco diferente…
Gostaria que, na medida do possível, TODOS aprendessem um pouco o que é ser japonês no Brasil e o que é ser brasileiro no Japão.