Por Roberto Tuji
Sou dekasegui e resido no Japão há mais de 20 anos, já trabalhei em fábricas como operário, depois como profissional e agora como empresário na área de alimentação, sendo nossos clientes brasileiros e japoneses.
Quero parabenizar o sério trabalho que vem sendo realizado pela Universidade de Arte e Cultura de Shizuoka e os palestrantes Sr.Shiguehiro Ikegami, Lucia Yamamoto e Sandra Caselato. Sem o apoio de voces a nossa comunidade estaria em piores situações.
Sou leitor assíduo de assuntos relacionados à nossa comunidade, tais como os temas abordados em debates, seminários e palestras. Tenho notado que a essência do conteúdo é quase sempre o mesmo: integração social com a comunidade japonesa e problemas psicológicos dos brasileiros.
Em minha opinião, esses problemas sempre existiram na nossa comunidade, mas só recentemente é que foram notados, acredito que com a crise econômica que abalou o Japão no final de 2008 é que as autoridades brasileiras e japonesas foram se “dar conta” da real situação, porém muito tarde, afinal já se passaram mais de 20 anos. A primeira geração envelheceu, e a segunda não sabe pra onde ir, ou seja, está completamente perdida sem pessoas ao seu redor para se espalhar a fim de criar um futuro próspero e feliz.
Qual será o futuro da próxima geração? Se não tomarmos providências urgentes, o resultado será catastrófico, não só para os brasileiros residentes no Japão, mas também para a economia e sociedade japonesa.
As medidas deveriam ter sido tomadas logo após o noticiário do primeiro suicídio de brasileiro em terras nipônicas, pois só assim teríamos condições de saber o real motivo que o levou a cometer tal ato, e imediatamente procurar soluções para que não ocorresse mais. Naquela época o que se escutava era que ele se suicidou por ter terminado o namoro com a fulana ou por ter descoberto que estava sendo traído, ou que foi abandonado pela esposa e por ai vai. Note que são todos problemas de comportamento anormal do ser humano, ou seja, problemas psicológicos, e com certeza se esses problemas tivessem ocorrido com essa pessoa no Brasil, a reação seria outra, e não o suicídio. Mas como naquela época era de abundância, nenhuma providência foi tomada, pelo menos não tenho recordação de ter lido algo a respeito na mídia brasileira.
São tantos os problemas que a nossa comunidade está enfrentando atualmente que às vezes não sabemos nem por onde dar o pontapé inicial para uma possível solução em curto prazo. Vou citar alguns que acredito serem os mais importantes:
- Problemas de saúde (da primeira geração),
- Problemas financeiros,
- Problemas familiares (casal)
- Problemas familiares (relacionamento com os filhos jovens)
- Problemas de identidade (dos filhos da primeira geração)
- Problemas de depressão, estresse e isolamento social (causado pelo ambiente de trabalho e família)
- Problema da falta de motivação (você consegue explanar alguns motivos que podem levar um dekassegui a ter motivação excluindo o salário no final do mês)
- Problemas da ansiedade de querer retornar logo ao Brasil, e não ter condições.
- Problemas do medo da elevada criminalidade em que se encontra o Brasil atualmente
- Etc…
Querer corrigir agora um problema que já existe há 20 anos é como querer curar um câncer em estado terminal. Não estou querendo dizer que é impossível, pois existem vários casos de pessoas que haviam sidas condenadas pelos médicos e conseguiram se curar, contrariando as leis da natureza. Essas pessoas tiveram muita força de vontade para vencer a doença, pensamento positivo e com certeza traçaram metas para quando ficarem curadas puder executá-las. O apoio da família é uma das bases para curas assim.
Acredito que as “principais causas” que fizeram nossa comunidade chegar à atual situação seja:
- Falta de “metas bem definidas” – 30%
- Desconhecimento da “cultura e língua japonesa” – 30%
- Falha no planejamento estratégico do Japão com relação à vinda de trabalhadores estrangeiros. – 30%
- outros – 10%
Explicando um pouco melhor:
*Falta de “metas bem definidas” – 30%
Sem metas não se chega a lugar algum, e se não forem bem definidas pior ainda. Se você não sabe o que veio fazer no Japão, significa que você não sabe o que fazer da sua vida, ou seja, vai ficando….
As pessoas que vieram com “metas bem definidas” estão muito bem no Brasil e algumas no Japão, afinal metas é um assunto muito pessoal. Se sua meta é poupar dinheiro, você precisa estipular um valor que irá guardar mensalmente e quando atingir a meta estabelecida, correr atrás para realizar seu sonho. O problema é que no meio do caminho algumas pessoas saem do “foco” dificultando a realização das metas, e uma vez que saiu retornar não será uma tarefa muito fácil.
Os dekasseguis precisam definir corretamente suas metas, ou vai ou fica, chega de ficar nesse “um dia retornarei”, “vou ano que vem”, “ainda não defini quando retornarei”, etc.
* Desconhecimento da “cultura e língua japonesa” – 30%
Qualquer pessoa aprende o inglês sem estudar a cultura inglesa, isso porque a língua e cultura inglesa não estão interligadas como a japonesa. Esse é um dos grandes erros cometidos pela maioria dos estrangeiros que vem morar no Japão, e os brasileiros não ficam de fora. Na minha concepção devemos aprender simultâneamente a cultura e língua japonesa e não apenas a língua e depois a cultura.
Mas por quê primeiro a cultura e depois a língua?
Os japoneses tem o costume de se relacionar utilizando o “kimochi”, que significa “sentimento” ou “sensação”, já nós brasileiros nos relacionamos mais utilizando a “razão”.
Essa comunicação entre eles chama-se “ishindenshin”, sendo utilizado praticamente em todos os momentos de uma conversa, tanto no trabalho como no ambiente familiar. Quando um japonês conversa com um brasileiro, ele sente que não é correspondido a altura, gerando uma grande barreira para a integração social. Como não existe integração social sem comunicação, as duas culturas não se misturam, permanecendo como estamos até hoje, sem integração social. Os brasileiros que conseguem absorver muito bem a cultura ao ponto de se comunicar sem problemas utilizando o “ishindenshin”, são felizes no Japão tanto no seu emprego como na vizinhança. Uma vez que um estrangeiro é aceito por um grupo, ou do trabalho ou do bairro, os japoneses desse grupo são mais do que amigos, eles são seus admiradores e dificilmente irão lhe trair, pois a lealdade é uma característica do “bushido” na qual foi formada os princípios da sociedade japonesa na período “Edo”. É muito mais fácil ser aceito por um grupo falando 20% de japonês e conhecendo 80% da sua cultura, do que o inverso.
Mas, onde vou aprender a cultura? Tem algum livro que ensina a cultura japonesa? Tem curso que ensine a cultura? Uma cultura não se aprende em livros e nem em curso, se adquire convivendo e observando os mínimos detalhes.
* Falha no planejamento estratégico do Japão com relação à vinda de trabalhadores estrangeiros. – 30%
Não sei exatamente os motivos que levaram o Japão a atrair os dekasseguis prar vir trabalhar em suas terras. No meu caso foi assim: No fim da década de 80 e no começo da década de 90, período da “bolha econômica” japonesa, muitos amigos meus resolveram vir ao Japão para trabalhar como dekassegui e após um curto período iriam retornar ao Brasil. Falava-se nos três “k”, kitsui, kitanai e kiken, mas não imaginava que seria dura a vida por aqui. Vim com a intenção de passar três anos, e já estou há vinte. Na época não havia requisitos necessários para vir ao Japão, bastava força e coragem.
Aqui está o “erro” sob meu ponto de vista. Acredito que o Japão não imaginava que a nossa cultura fosse tão diferente da deles e que por isso poderia causar os problemas que estamos causando, senão teriam pensado antes de criar o “visto especial” que só os dekassegui possuem. O tempo passou, alguns fixaram residência e já não será tão fácil convencê-los a retornar ao Brasil.
Os contratos de trabalho deveriam ter sido por tempo limitado (3, 5 ou 10 anos, por exemplo) e só renovados se fossem aprovados através de uma avaliação da sociedade em que estivesse envolvido dando a esse cidadão a oportunidade de escolher ou não a cidadania japonesa.
Na Austrália acontece coisa parecida, mas a diferença está na seleção do candidato que irá receber o visto de imigrante. Pelo que observo o governo australiano não está interessado apenas na mão de obra qualificada do imigrante, mas sim a integração social como um todo.
No Japão, devido a sua cultura e outros fatores, as coisas são bem diferentes. Por exemplo, fiquei sabendo que em algumas empresas de grande porte para um cidadão ser funcionário efetivo, em japonês chama-se “seishain”, é necessário que seja japonês, e isso está nos estatutos da empresa. Eles devem ter seus motivos, mas esse comportamento limita os estrangeiros que possuem capacidade intelectual a se desenvolverem profissionalmente e nivela com os que possuem baixa capacidade. Aqui vai uma dúvida: Como você acha que esse indivíduo vai se comportar psicologicamente sabendo que seu progresso profissional está limitado por ser estrangeiro?
A motivação gera felicidade, paz familiar, engrandecimento espiritual, moral, enfim, é tudo que nós precisamos para acabar com nossos problemas aqui no Japão. Ser motivado pelo salário que você irá receber no final do mês é o mesmo que ficar motivado apenas um dia dentro de trinta, ou seja, apenas no dia do recebimento do holerite.
Ensinar japonês aos brasileiros não vai resolver absolutamente nada, será dinheiro jogado fora, ou melhor, dado as empreiteiras. Esse capital deve ser investido em seminários organizados pelos hello-works ou entidades dispostas a resolver esse problema definitivamente. Todos os estrangeiros que fossem procurar empregos nos hello-works devem assistir esse seminário, pois só assim ele estará ciente da “origem dos problemas” que a comunidade está enfrentando e assim poder contribuir para que todos juntos possamos contribuir para um Japão mais forte, afinal é nossa pátria no momento.
Precisamos esclarecer aos brasileiros e sensibilizá-los da importância do conhecimento da cultura e da língua, e que sem essa base nossa permanência no Japão será perda de tempo.






















Prezado Roberto,
Falou tudo!
Belo texto!
Gostaria de enfatizar o tópico sobre pessoas para se espelhar.
Acredito que as crianças brasileiras no Japão tem carência de exemplos para seguir.
Att.
Dino
Caro Roberto,
Seu texto é muito bom e bem expressado, parabéns! Entretanto, gostaria de comentar sobre uma parte dele, onde você fala sobre os diversos problemas que os brasileiros que vivem no Japão tem.
Nesta parte você comentou sobre o ” … – Problema da falta de motivação (você consegue explanar alguns motivos que podem levar um dekassegui a ter motivação excluindo o salário no final do mês) … ” e sobre ” … – Problemas do medo da elevada criminalidade em que se encontra o Brasil atualmente …”.
Sinceramente, acredito que a segunda frase responde a primeira.
Uma excelente razão para o brasileiro que vive no Japão se motivar (além do salário no final do mês) é simplesmente o fato do baixo índice de criminalidade existente no arquipélago, gerando maior segurança para ele e sua família. A possibilidade de oferecer (mais facilmente) aos filhos uma boa condição de estudo e uma vida mais confortável, que certamente não seria tão fácil se ele estivesse trabalhando no brasil, numa mesma profissão, etc.
Não me leve a mal, apenas pela divergência de opiniões. Tenho certeza da existência de muitos dos problemas que você mencionou em seu artigo, mas acredito que muitos dos que moram no Japão e que se dizem desmotivados ou motivados apenas pelo salário no final do mês (note que não é regra geral, é claro) , apenas precisam parar e olhar um pouco mais friamente para sua própria situação, e talvez, comparar com como seria sua situação se estivesse trabalhando com a mesma coisa no Brasil!
Um abraço,
Rogério.
olá sr. Roberto.
Concordo com o seu pensamento e tenho a mesma opinião, 100%.
De um modo geral, a comunidade de brasileiros no Japão precisa de conscientização.
Para haver conscientização é necessário ampliar acesso à informação também.
Há muitos brasileiros, por exemplo, que não sabem qual a utilidade de um consulado ou embaixada. Também não sabem de seus direitos e deveres e quando sabem, não dão importância por não compreender.
O cidadão bem informado e conscientizado sabe se cuidar por conta própria e, consequentemente serão reduzidos ou dizimados os principais problemas referentes à saúde, educação, trabalho e moradia.
É basicamente isso, informação e conscientização.
Resumindo com um ditado popular, “não dê o peixe, ensine a pescar”.
Muito bom saber que alguem se preocupa dessa forma com a comunidade brasileira,mas,infelizmente esses problemas todos nao tem solucao,porque ninguem aceita ajuda caso nao peca e os brasileiros pensam que estao em casa,que podem fazer o que quiser,brasileiro nao gosta de seguir regras, eh mal educado,preguicoso,nao tem motivacao por que eh mais facil trabalhar igual a robo,que nao precisa pensar e no fim do mes receber o salario.Pensa que eles estao interessados em aprender a cultura japonesa? Tao nada,tantos anos aqui e se recusam a separar o lixo,nao conseguem pedir licenca,desculpas,fazer silencio depois das 10 da noite,respeitar no transito . Esse tipo de gente tem filhos e sao educados de acordo com os pais.Outra,japoneses tbm se suicidam,talvez nao pelos mesmos motivos,o Japao tbm tem seu lado negro.Os Australianos nao sao civilizados iguais aos japoneses,houve epocas de crises na Australia que os estrangeiros estavam sendo agredidos pelos australianos,porque simplesmente viram nos forasteiros ameacas a suas vidinhas tranquilas,com empreguinhos,comida e sossego.Patetico isso tudo!mas,acontece.E eu concordo com o Rogerio.
Falou tarde demais.
É mais um que escreve somente depois que tudo aconteceu. Onde estava o autor há 15 anos? Por que não se manifestou quando o primeiro brasileiro cometeu suicídio? Por que não escreveu seu ponto de vista antes?
Que tipo de ajuda pode ter um texto desse depois de vinte anos? Hoje, depois da crise econômica, todo dekassegui adquiriu um mínimo de conhecimento sobre a realidade japonesa. Conhecer a cultura depois a comunicação é brincadeira. De que jeito? Onde? Com quem?
Recuso um trabalho e digo que não aceito porque não conheço a cultura? Oras….
monte de brasileiros no Japao ja se naturalizaram ou tem o visto permanente,o q nao acontece com os brasileiros nos EUA e europa,onde a maioria estao ilegais.
dekaseguis q tiveram cabeça e guardaram dinheiro no Japao,compraram casa ,carro e pagaram faculdade no BR.
Os q gastaram a toa com drift, tuning,sunako e pachinko esses dançaram.
7 vacas gordas e 7 vacas magras.
dekaseguis acham q a globo os humilha
sinto falta da minha batian e ditian
pensao alimenticia tem q pagar