2009 se encerra hoje, quando fechamos mais um ano cheio de surpresas, algumas boas e algumas não tão boas assim. Em continuação à crise econômica, que teve início no final do ano de 2008, muitos brasileiros enfrentaram dificuldades.
Alguns decidiram utilizar subsídios do governo japonês e retornar para o Brasil. Mas muitos outros optaram por ficar. Permaneceram no Japão convencidos de que a situação econômica do país pode melhorar.
Estima-se que o número de brasileiros sofreu uma queda de cerca de 70 mil pessoas, mas 250 mil permanecem no país. A nossa redação conversou com algumas pessoas que acompanharam a comunidade brasileira em 2009. Eles contam como foi o ano e como enxergam 2010.
Saúde

Neusa Miyata, Presidente do Disque Saúde
2009 foi… de forma geral, sem registro de aumento ou redução significativos no número de atendimentos, mas observamos que os casos de depressão e estresse cresceram. Logo no início da crise, o número de atendimentos diminuiu um pouco. A prioridade dos brasileiros mudou para outros assuntos (seguro desemprego, moradia, escola das crianças, voltar ou não ao Brasil), deixando a saúde de lado. Um dos nossos patrocinadores teve que interromper a ajuda ao Programa. Mas muitos, e aproveito para agradecê-los, permaneceram ajudando, sem medir esforços. No decorrer do ano, o número de atendimentos voltou ao normal, sendo que a maior parte das consultas foi sobre clínica geral, 28%.
2010 será… para unir nossas forças e fazer com que a comunidade possa viver melhor e com tranquilidade aqui no Japão. Os nossos esforços estarão voltados para continuar ao lado dos brasileiros, oferecendo suporte. Pretendemos ainda, ampliar nossos serviços, fazendo campanhas e palestras sobre prevenção de doenças.
Voluntariado

Guida Suzuki, Vice-presidente da Associação Brasileira de Toyohashi (ABT) - Aichi
2009 foi… extremamente difícil para todos. Mas fora o lado triste e cheio de obstáculos, 2009 nos mostrou o lado humano e solidário das pessoas. Graças à crise, a ABT conseguiu formar uma network com as comunidades religiosas, independente do credo, para juntos distribuirmos cestas básicas para os necessitados. Foram arrecadados e distribuídos cerca de 1 tonelada de alimento. Foi emocionante sentir de perto, a vontade de ajudar dos brasileiros e dos japoneses de todas as partes do país. Passamos um ano cheio de sentimento de gratidão e comoção. Tudo isso deu muita força para os voluntários, que cederam seus esforços, mais do que nunca. Nos últimos meses, muitos conseguiram se recolocar no mercado de trabalho, mas temos que levar em conta que muita gente que não queria ir embora, mas não tiveram outra alternativa e com a redução do número de pessoas, aumentam as chances para os que ficaram.
2010 será… um ano de novos projetos e para isso, precisaremos aumentar nossa família, com mais voluntários e associados. Estão previstas palestras, aulas de japonês para crianças e adultos e grupos de terapias. Acredito que o susto foi grande e fez nascer em muitas pessoas, a consciência de que é preciso estar preparado. Infelizmente amanhã é amanhã e as pessoas talvez esqueçam desse episódio. De qualquer forma, acho que estaremos melhor preparados para uma próxima crise. As coisas ainda estão difíceis, mas é nessas horas que damos valor às coisas pequenas. Temos que acreditar em dias melhores e num futuro melhor para os nossos filhos e lutar com todas as nossas forças para alcançarmos esse objetivo.

Alcides Tanaka, Presidente da ABT e Diretor de Operações da Nippon Juice
2009 foi…um ano difícil, pois aconteceu muita coisa que a gente não esperava. Muitos não estavam preparados e a realidade foi dura de enfrentar. Infelizmente muitos voltaram para o Brasil, reduzindo quase na metade, acredito, a comunidade brasileira de Toyohashi. Mas por outro lado, pudemos trabalhar com a solidariedade de muitas pessoas, japoneses, empresas e instituições.
2010 será… sem querer ser pessimista, mas realista, acredito que será uma continuação das dificuldades. Muitos contratos de trabalho serão encerrados em março e ninguém sabe como ficará abril. Será preciso correr atrás de uma rápida adaptação. Acredito que as pessoas terão que mudar o estilo de vida e se enquadrar aos novos tempos. Com o trabalho da ABT, queremos continuar nos dedicando às aulas de japonês, acreditando que essa é uma das formas de adaptação no Japão.
Informação e Educação

Edilson Kinjo, Coordenador do Centro de Orientação de Minokamo (Gifu)
2009 foi… um ano em que muita gente estava perdida. Pessoas sem saber o que ia acontecer, sem reserva de dinheiro para voltar ou para passar o próximo mês. As pessoas perceberam que tinham que “se virar” sozinhas e não sabiam como faziam para lidar com contas atrasadas, dívidas em cartões de crédito. Estimamos que cerca de 40% perderam o emprego nas regiões de Minokamo e Kani. Nosso trabalho esse ano foi tentar fazer o meio de campo. Passar o máximo de informações possíveis, guiando-os para os locais onde poderiam resolver os problemas. Na área da educação, onde a NPO (entidade sem fins lucrativos) sempre esteve focada, percebemos a dificuldade de adaptação em escolas japonesas e até, em alguns casos, crianças que estavam fora das escolas. Mas felizmente, cedo ou tarde, o governo percebeu que essa área era de grande importância e começou a oferecer ajuda, com mais tradutores, salas de adaptação, entre outras medidas.
2010 será… um ano de novos desafios. Vamos implantar novos projetos com menor apoio do governo, que já fala em corte de verbas para os projetos em parceria com a associação. O que nos preocupa é uma camada da população brasileira, na faixa dos 40 a 50 anos que foram demitidos no final do ano passado e até agora não voltaram a trabalhar. A nossa ajuda esse ano se foca nesse perfil. Para a comunidade, acredito que é hora de começar a caminhar com as próprias pernas. O governo começou a se mexer e implantou medidas de ajuda, mas não basta ficar sentado achando que tudo vai se resolver, é o momento de correr atrás e manter-se informado.
Trabalho e economia
Hiroaki Taga, Economista Sênior, Pesquisador e Consultor do Instituto de Pesquisa Kyoritsu do Grupo Kyoritsu Ginko
2009 foi… especialmente complicado para o Japão, que depende muito de exportação para os Estados Unidos. Não há números exatos de quantos estrangeiros – ou mesmo japoneses – perderam seus empregos, mas certamente, muitos que trabalhavam em fábricas de autopeças em Aichi e Shizuoka foram demitidos. Boatos chegaram dizendo que 70% a 80% dos brasileiros estavam desempregados, não sabemos se isso se comprova de fato. O certo é que há uma notável diferença no volume de brasileiros. Dá para perceber que foi um desastre. Mas não só entre a comunidade, mas na população em geral o que se viu foi um caos nos jornais e na tevê. As mídias só mostravam o lado triste da crise, por vezes até exagerando e assustando as pessoas, fazendo que a situação fosse ainda mais desesperadora. As pessoas pararam de gastar e isso dificultou ainda mais a situação.
2010 será… um ano em que infelizmente não podemos esperar grandes mudanças. Pela observação de empresas que atuam localizadamente, acredito que em termos de trabalho, não possamos ver muitas melhoras em 2010. O processo de contratar e mandar embora não deve terminar da noite para o dia. Olhando a situação de forma micro e não o macro, o que se ouve é uma possível segunda grande crise econômica. Na minha opinião, o país ainda não está pronto para reagir. As fábricas não têm para quem produzir. Empresários falam em trazer a produção da Ásia para o Japão, empregando mão de obra local, mas quando colocam os custos no papel, voltam atrás e o processo continua como está. Acredito que uma significativa reação será observada em três anos.
Mercado brasileiro

Roberto Martins, proprietário da rede de lojas de produtos brasileiros, Bell Mart em Ogaki (Gifu), Komaki (Aichi) e Suzuka (Mie)
2009 foi…um ano para repensar a empresa e fazer uma reestruturação administrativa. Estamos a dez anos no comércio e sabemos que as coisas nem sempre vão bem. Mas esse ano os problemas não eram internos, mas externos e estava fora do nosso alcance. Sofremos com a concorrência acirrada dos outros que também precisaram sobreviver e ficamos praticamente sem margem de lucro, arcando com prejuízos. Só agora no final do ano começamos a colher os frutos de tanto trabalho e tivemos um final de ano mais corrido que o esperado. Durante o ano as pessoas estavam mais cuidadosas, e as festas do ano passado foram reprimidas pelas preocupações com o desemprego e as dívidas. O que percebemos é que esse ano as pessoas querem compensar, comemorar o que não comemoraram no natal e réveillon passado. A quantidade de carne dobrou de 4 toneladas para 8 toneladas.
2010 será… um ponto de interrogação. Depender do consumo da comunidade brasileira é depender das empreiteiras e ainda não está claro como será o mercado de trabalho para os brasileiros. Acredito que será um ano ainda complicado, mas estou otimista e acreditando em novos projetos, que no nosso caso, foi ingressar no mercado japonês. Fizemos pesquisas e estudos, esperando os resultados positivos em 2010.
Entretenimento

Leonardo Abe, proprietário da casa noturna Nigth Café, de Komaki (Aichi)
2009 foi… um ano de bolsos fechados, porque o ano foi difícil para todo mundo. O pessoal que frequenta a casa mostrou que estava com medo de gastar. Além dos que foram embora para o Brasil, o que acredito que chegue a quase 40% da comunidade da região, as pessoas continuaram buscando por diversão e frequentaram a casa. Quem gosta de balada sai para noite, mesmo sem dinheiro. A diferença é que consome menos. Por isso a casa foi se adaptando para poder ir se mantendo até agora.
2010 será… dançar conforme a música. Todos terão que se adaptar e viver e trabalhar como a situação permite. Nós também, vamos nos adaptando para o próximo ano. Pretendemos colocar mais diversão dentro do Nigth Café, criando novos espaços para o público se divertir e relaxar. Acho que no próximo ano, mais do que nunca, será preciso visualizar os nossos desejos e senti-los como se fossem reais para torná-los realidade.
A equipe do Portal Webnews.com deseja a toda comunidade brasileira, todos os parceiros e colaboradores um novo ano próspero e cheio de realizações. Que em 2010 possamos usar nossa sabedoria para transformar tudo em boas experiências e lições de vida. Escolhemos permanecer no Japão e vamos fazer dos nossos dias aqui, especiais! Vamos enfrentar as diferenças, aprender com os japoneses, ensiná-los a nossa alegria de viver e conquistar nossos sonhos. Feliz 2010!
Equipe Portal Webnews.com






















Um Feliz 2010 para todos que estão batalhando aqui no Japão e que neste ano possamos aproveitar muito mais a cultura deste povo milenar e quem sabe aprendermos um pouco mais!
Parabens. O artigo foi muito bem escrito. Pelo que vi as previsoes continuam pessimistas e teremos que nos readaptar a esta nova realidade